“Em seu primeiro livro, O Nascimento da Tragédia, Nietzsche faz uma exaltação à cultura pré-socrática. Segundo ele, depois de sócrates a humanidade entrou em um ciclo de decadência cultural que perdura até os dias de hoje. A argumentação do bigodudo era mais ou menos assim.
Durante as celebrações rituais das tragédias, os gregos cultuavam dois deuses opostos e complementares. Apolo, o deus das formas ideais, da ordem e do mundo perfeitos dos sonhos e Dioniso, o deus da fertilidade, da orgia e da sensualidade. Em um resumo grosseiro, Apolo seria o deus das expressões mentais enquanto Dioniso se encarregaria das expressões corporais. A tragédia grega unia estas duas figuras opostas, fazendo daquela cultura a mais perfeita da história da civilização. Dionisíaca e apolínia, a civilização mais bem resolvida consigo mesma, por assim dizer.
Com a filosofia de Sócrates esse par perfeito se desfez e o apolínio passou a sobrepujar o dionisíaco. E o cristianismo ainda calhou de cimentar ainda mais essa visão de mundo ao decretar que o pecado estava na carne. Durante a idade média esse pensamento gerou muitas atrocidades. Com o renascimento a humanidade teve sua chance de ouro para resgatar a glória dos velhos tempos, no entanto a nascente burguesia, na hora de resgatar o período classico grego, focou-se na filosofia socrática e Dioniso continuou escanteado.
Com a ascenção da burguesia e o surgimento do conceito de alta cultura, Apolo passou definitivamente a dar as cartas no mundo da arte. Mas o povão, esta imensa massa de seres rudes e incultos, manteve em suas festas e carnavais a chama dionisíaca acesa.
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o preconceito que nossas elites culturais paraenses alimentam contra o tecnomelody, será que não tem um pouquinho a ver com o desprezo pelo corpo e pela sensualidade que o excesso apolínio impôs a sua cultura? Será que as manifestações culturais populares, que mais do que em qualquer outro país do mundo, estão arrombando as portas da cultura de massas, não farão do Brasil o palco de uma nova renascença? Será? Hein? Que tal?”